31 de março de 2016

TESTEMUNHAS DA MISERICÓRDIA NA ALEGRIA

Neste 2º Domingo da Páscoa, celebramos a Festa da Divina Misericórdia instituída por São João Paulo II. Somos convidados a nos aproximar com total confiança da Infinita Misericórdia que brota do Coração de Jesus aberto pela lança do soldado de onde jorram sangue e água nos recordando o batismo e a Eucaristia. O coração de Jesus sempre esteve aberto derramando sua misericórdia por todos os homens.

Deste coração aberto e sempre generoso nós recebemos todas as graças e bênçãos de que necessitamos. Por isso precisamos também perseverar na oração pois o Senhor faz a sua parte. Quanto mais buscarmos ao Senhor, mais Ele vai se revelando a nós.

Na segunda-feira da oitava da Páscoa (28/03) no Evangelho de Mateus (28,8-15) a primeira palavra de Jesus quando aparece as mulheres que vão ao túmulo é ‘Alegrai-vos’! O tempo do luto e da tristeza acabou. Ele ressuscitou e caminha junto com os seus. O evangelista enfatiza ainda que elas partiram de pressa para anunciar aos discípulos o que tinham visto. Foram alegres ser testemunhas do ressuscitado.

Lembramos que a primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco lançada em 2013 foi a Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho). O Sumo Pontífice iniciou sua Exortação dizendo que “A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (n. 1).

Queridos e amados irmãos. Precisamos todos os dias resgatar esta alegria verdadeira que só vem de Deus. Como diz o Papa, ela enche o coração e a vida inteira. Ela não é passageira como as ‘alegrias’ que o mundo nos oferece através do ter e do poder. Mas não é uma alegria invasiva, ela preenche o coração daqueles que se deixam, continua o Pontífice, envolver por ela. Este encontro com o Senhor nos liberta “do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento”. É uma alegria que nos transforma e nos faz discípulos. Sentimos a necessidade de partilhar esta alegria com outras pessoas.

Foi esta alegria que motivou e impulsionou os discípulos de Jesus. Não como um ornamento artificial, mas algo que fez deles testemunhas até a doação da própria vida. Vemos isso retratado na Leitura dos Atos dos Apóstolos (5,12-16). Grandes multidões vinham ao encontro dos Apóstolos porque eles testemunhavam com entusiasmo tudo o que tinham visto e ouvido. A experiência do ressuscitado os enche do Espírito Santo e nada mais os poderá deter. Irão até onde Deus quer que a Palavra chegue para que ela fosse conhecida a muitos povos. Que discípulo eu sou? Sou feliz por ser cristão? Sou discípulo alegre, entusiasmado? Deixo transbordar em mim a alegria que vem do Senhor? Minha alegria contagia e anima as pessoas?

A experiência com o ressuscitado, como ouvimos no Evangelho (João 20,19-31) acontece por excelência na comunidade reunida. Tomé fará esta experiência dentro e não fora da comunidade. Por isso, mais uma vez, ressaltamos a importância da participação da santa missa e dos outros momentos de fé das nossas comunidades. É na comunidade reunida que o Senhor se revela e transmite a sua alegria e a sua paz. A comunidade deve favorecer a experiência com o ressuscitado. Lá todos devem sentir-se bem, acolhidos e amados.

Precisamos nos embeber desta paz que vem do Senhor para poder multiplica-la onde estamos. Não é uma paz qualquer, mas aquela paz que faz de nós instrumentos também da misericórdia e da ternura de Deus.

Tudo o que vivemos na Semana Santa e na oitava da Páscoa é um grande gesto de misericórdia do Senhor para conosco. Tudo o que Deus faz é cheio de misericórdia e de amor. Por isso quem se aproxima d’Ele faz esta experiência que transforma toda a vida.

Sejamos missionários da Misericórdia! Você que fez a experiência de ser amado e perdoado por Deus, convide seus irmãos para que também a façam.

Abençoado Domingo! Jesus Misericordioso, tende compaixão de nós e do mundo inteiro.

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.

REZANDO O TERÇO DA MISERICÓRDIA

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém

Pai-Nosso…
Ave-Maria…
Creio…

Nas contas do Pai-Nosso, reza-se: Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e Sangue, a Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e do mundo inteiro.

Nas contas das Ave-Marias, reza-se: Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. (10 vezes)

Ao fim do terço, reza-se: Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro.

26 de março de 2016

Feliz Páscoa!

Aos nossos amigos e benfeitores desejamos que a ressurreição de Cristo recobre em vós a alegria de servi-lo!
Para que sejamos luz do mundo e sal da terra, transformando com nosso jeito de amar a nossa vida e a vida daqueles que a Providência coloca em nossas vidas.
Agradecemos pela amizade, carinho e orações.
Deus abençoe a todos.


A VITÓRIA DE CRISTO É NOSSA TAMBÉM! Feliz Páscoa!

Chegamos ao grande acontecimento da história da humanidade. Algo nunca visto antes. Uma grande notícia e surpresa para todos. O Senhor sempre vai além daquilo que os homens podem esperar: ELE RESSUSCITOU! É PÁSCOA! ALELUIA! ALEGRAI-VOS!

Na noite de sábado santo temos a mãe de todas as liturgias: a Vigília Pascal! Ela faz memória de todos os principais acontecimentos da história que manifestam a presença de Deus e a salvação que vai acontecendo. A plenitude de todos os acontecimentos é a Páscoa. Nela Jesus manifesta tudo o que Deus, e só Deus pode fazer: dar a vida! Ele tudo criou; Ele a todos fez; Ele nos salvou!

Além da belíssima e não longa liturgia da Palavra (como alguns infelizmente comentam), que vai percorrendo esta história marcada pela misericórdia de Deus, temos ainda a Liturgia batismal onde ocorrem os batizados ou a água que será usada para o batismo é abençoada. Toda a comunidade renova as suas promessas batismais lembrando que nas águas do batismo nós fomos sepultados com Cristo para ressurgirmos com Ele e vivermos como pessoas novas.

Pelas águas do batismo foi lavado o pecado original e assim nos tornamos definitivamente filhos e filhas de Deus. Esta marca é indelével, ou seja, que ninguém pode apagar de nós. Por isso, a partir do batismo, e fazendo memória deste dia, deveríamos viver como criaturas novas, pois o batismo nos dá a força para vivermos na graça de Deus.

Temos ainda, no início da santa Vigília a bênçãos do fogo novo, que é Cristo. O fogo lembra o Espírito Santo, a luz que é Jesus. É abençoado o Círio, uma grande vela que traz as cinco chagas de Cristo, o ano em curso e a cruz. Ele é sinal de que Cristo está vivo e presente no meio do seu povo. Ele continuará aceso em todas as missas até a festa de Pentecostes. Depois será usado em celebrações como o batismo. Todos nós recebemos da luz de Cristo. Nossa vida é iluminada por esta luz. Por que as vezes preferimos as trevas?

E assim, nesta noite santa e no Domingo por excelência cantamos o Aleluia! Jesus venceu a morte e fez de cada um de nós um vencedor! Este Aleluia será proclamado com ênfase pelos próximos sete dias até completarmos a oitava da Páscoa.

Nos evangelhos temos relatados que as mulheres que estavam sempre com Jesus, vão fazer-lhe uma visita no primeiro dia da semana. Elas não estavam conformadas com aquele fim trágico. Sentiam que algo novo estava acontecendo; que algo maior e mais surpreendente deveria acontecer; que a crueldade dos homens não era a última palavra diante de Deus. Impulsionadas pelo Espírito Santo elas vão ao túmulo e lá, onde deveria estar o defunto em decomposição, elas encontram-se com a vida. O túmulo estava vazio! A morte não tinha vencido Jesus! Ele é maior e vencedor.

Imagine a surpresa e a alegria daquelas mulheres que correm contar aos discípulos o que elas viram. Elas não guardaram a notícia apenas para si. Queriam compartilhar com aqueles que estavam próximos do Senhor como elas. A novidade e a alegria preenche o coração de todos.

Queridos irmãos e irmãs. Hoje é Páscoa! Você que buscou nesta Quaresma viver uma vida diferente; você que buscou mais a oração, praticou a caridade e o jejum, deve sentir hoje uma grande alegria em seu coração. O teu pequeno sacrifício é recompensado com esta grande notícia e alegria. Jesus traz a você e a toda a humanidade vida nova.

Hoje, renovando as promessas do teu batismo, és convidado a viver de fato uma vida nova. Renovar os propósitos de renunciar a satanás e todas as suas artimanhas que destroem a criação de Deus e não nos quer ver vivendo felizes. Revestindo-te de Cristo és convocado a viver do jeito de Jesus. A tua, a nossa alegria consiste em imitá-lo em todos os pensamentos, palavras e ações.

Hoje somos convidados a cantar o Aleluia, a alegria de sermos amados, perdoados e salvos por Ele que quer somente o nosso bem. Vamos, assim como as mulheres que foram ao túmulo, correr ao encontro dos nossos irmãos que vivem longe d’Ele e anunciar esta alegria. Dizer a estes que eles também são amados por Deus e que Ele morreu e ressuscitou por todos nós, para nossa salvação.

Quando vamos a missa, em cada santa missa, lá fazemos este encontro com o ressuscitado. Por isso deveríamos sair transbordando de alegria. Este encontro deveria nos transformar, porque não é um encontro qualquer, mas o encontro com alguém que é capaz de vencer a morte e se venceu a morte, nos ajuda a vencermos nossas limitações.

Feliz Páscoa! Que esta alegria continue por todos os dias da tua vida. Que a luz de Cristo brilhe sempre em nosso caminho e em nosso coração. Que a água do batismo nos purifique sempre dos nossos pecados.

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.

24 de março de 2016

CRUZ! ÁRVORE DA VIDA NOVA (6ª-Feira Santa)

Amados irmãos e irmãs. Estamos diante do grande mistério da Cruz onde não é preciso falar muito. Gostaria de convidar todos os cristãos a contemplarem em silêncio a Cruz de Cristo. Teremos na Celebração da Sexta-feira Santa o rito de adoração da Cruz. Por ela nos veio a salvação.

Gostaria de chamar a atenção para um fato que vem se tornando rotineiro em nosso país. A sexta-feira Santa tem deixado de ser um dia de profundo silêncio e oração e tem se transformado em um dia qualquer. Ou como querem as autoridades, simplesmente um feriado. Por providência li uma frase que retrata bem isso: “Católico passa a Semana Santa aos pés da Cruz, não na beira da praia!”

Um dos grandes problemas da atualidade e que tem se tornado um desafio cada vez maior, é o afastamento das pessoas da Igreja e a falta de compromisso com a verdade do Evangelho e as práticas de piedade. Quantos dizem-se Católicos mas que vivem de qualquer jeito? Quantos que se diziam Católicos abandonaram a Igreja de Jesus Cristo para seguir caprichos? Lembremo-nos que Jesus morreu para nossa Salvação. Merecemo-la!

Como no Brasil é feriado, oferecem-se múltiplas opções para passeio, cinema, diversão. E o pior que muitos de nós embarcamos nesta onda de deturpação dos valores cristãos e achamos ser normal. Nem sempre o que muitos fazem é a verdade e o caminho de felicidade.

Outro aspecto que me preocupa muito é ver que a Paixão de Jesus tem se tornado espetáculo. Fico triste até em ter que escrever isso. Fazem-se belos teatros sobre a Paixão de Jesus. Estamos romantizando de mais este gesto que foi tão cruel. Aí deixamos de participar da celebração da Paixão que a Igreja propõe, tão rica, e vamos assistir ao espetáculo.

Povo de Deus! Jesus não fez nenhum espetáculo da Cruz. Ele não foi pregado para fazer teatro ou para brincar de faz de conta. Ele foi CONDENADO, TORTURADO, PREGADO na Cruz e aí MORREU numa das cenas mais tristes e doloridas da humanidade, para nossa Salvação. Por isso este dia deveria ser um dia de grande silêncio para toda a humanidade. É o dia do silêncio de Deus para manifestar a sua glória na celebração da Páscoa. Cuidado para não estarmos ridicularizando a cruz de Cristo que foi marcada pelo sofrimento, pela entrega, pela doação total.

Entende-se porque queremos teatralizar a Cruz. É porque temos medo de assumir a nossa própria Cruz. Precisamos resgatar a dimensão do sofrimento, como meio de santificação e purificação e o silêncio, como momento de encontro com Deus. Claro que não precisamos ser masoquistas e nem terroristas buscando a mutilação, mas também não podemos ficar fugindo e reclamando de qualquer coisinha que nos acontece.

O excessivo barulho em que vivemos é um profundo medo de se encontrar consigo mesmo e com Deus. Aí busca-se preencher o dia, as horas de silêncio com músicas, televisão, celular. O silêncio tem se tornado algo insuportável para alguns. Quem não gosta do silêncio, não gosta de estar consigo mesmo e com Deus.

Feito esta observação (e desabafo), gostaria então de convidar que todos os católicos fossem neste grande dia contemplar o mistério da nossa Salvação que passa pela Cruz. Não quero com isso tirar a centralidade da Páscoa. Ela é a grande festa por excelência. Porém, cuidado para não buscarmos apenas a Páscoa e esquecermos de que para chegar lá houve muito sofrimento e dor.

Na narração da Paixão, vemos como as estruturas do mal não aceitam o Bem! Fazem de tudo para silenciar aquele que promove a vida. Jesus não entra na jogada deles, por isso fala muito pouco. Deixa tudo acontecer, porque Ele tem uma surpresa maior para revelar na Páscoa. Aparentemente está tudo acabado. Mas Deus nunca deixa o sangue inocente ser derramado em vão. Fará da cruz e da morte do seu Filho a ponte da Salvação eterna para todos, seja os que vieram antes e os que virão depois, até a consumação dos tempos.

Nesta celebração temos a Oração Universal que reza por diversas circunstancias, momentos e pessoas. Aí são incluídos todos porque somos filhos do mesmo Pai e Jesus morreu para todos, mesmo para aqueles que não acreditam e que não o buscam. Seguindo temos a Adoração da Cruz. Hoje nós adoramos a Cruz porque ela se tornou árvore da vida, da esperança da vida eterna. Por ela nos veio a salvação.

Abençoada celebração. Vamos crucificar nossos pecados para ressuscitar com Cristo em sua Páscoa e assim termos vida nova.

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.

22 de março de 2016

AMOU-NOS ATÉ O FIM! (5ª feira Santa)

Entramos no Tríduo Pascal, o coração da nossa fé. A partir deste dia faremos memória do dom mais elevado e precioso de Deus por nós. Ele deu o seu Filho único para nossa Salvação. Só o amor consegue fazer isso.

Na manhã desta Quinta-feira Santa acontece nas catedrais a Missa do Crisma. Nela o bispo com seus sacerdotes celebram a comunhão eclesial e os sacerdotes renovam suas promessas diante do Bispo. Também são abençoados os óleos dos Enfermos, Catecúmenos e do Crisma que serão usados ao longo do ano na administração dos sacramentos. A Igreja abençoa e reza unida e todos os que foram ungidos serão tocados pela força e pela graça de Deus. Serão fortalecidos em sua fé.

À noite temos a Missa da Ceia do Senhor. Nela acontece a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio e o Lava pés. Jesus encontrou uma forma de permanecer junto à sua Igreja, com o seu povo, a Eucaristia. Ela de fato é o próprio Cristo presente constantemente na sua Igreja.

O Evangelho (João 13,1-15) da Missa da Ceia do Senhor, inicia dizendo que “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.

Queridos irmãos e irmãs. Quantas vezes na caminhada que estamos fazendo somos tentados a desistir. O inimigo quer colocar em nosso coração a tentação do desânimo: “Não vale a pena continuar!” “Não vale a pena ser fiel!” “Veja que o outro que não segue a Cristo é mais rico e feliz que você!” Estas e muitas outras formas são utilizadas pelo inimigo para nos tirar do caminho de Deus e da Igreja.

Nossa resposta deveria ser como as de Jesus, lembrando quando Ele sofreu as tentações no deserto (Evangelho do 1º Domingo da Quaresma deste ano – clique aqui para ler a reflexão). Não só de pão vive o homem! Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás! Não tentarás o Senhor teu Deus! (Cf. Lucas 4,1-13).

Quem disse que a nossa felicidade consiste em ter muitos bens ou viver a vida de qualquer jeito? Que estamos aqui para se enriquecer? Que seremos eternos sobre a terra? Estas questões nos recordam que estamos aqui de passagem. De Deus saímos e para Ele estamos voltando. Estamos aqui para fazer o bem, promover a justiça, testemunhar o amor de Deus. Aqui não permaneceremos por muito tempo, mas no céu, para sempre. Chegaremos lá, se aqui buscarmos o Senhor. Só Ele pode nos salvar porque Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida! (Cf. João 14,6)

Jesus nos ensina a sermos fieis até o fim, ainda que isso custe sofrimento. Hoje está na moda trocar as coisas com muita facilidade. Trocamos marido, esposa, namorado/a, Igreja como se fosse trocar de celular, carro, roupa. Estamos coisificando as pessoas e o próprio Deus. Quando o Deus que busco na Igreja Católica não mais me satisfaz e interessa, busco o Deus na seita ou Igreja “X” até encontrar um deus que eu quero e não o verdadeiro Deus que nos ensina a fidelidade, amor, doação, caridade, humildade, serviço. O evangelista ressalta que Jesus, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Assim é o nosso Deus: Ele não nos ama pela metade, mais ou menos, se somos bons ou pecadores. Ele nos ama sempre e na totalidade esperando que correspondamos a este amor.

Olhando o capítulo 13 de João vemos como acontece a ceia. Jesus reza e conversa com seus discípulos. Depois para demostrar como devem ser as atitudes de quem quer segui-lo, Ele mesmo dá um grande exemplo de humildade lavando os pés dos discípulos. Pedro inicialmente não entende e não quer aceitar este gesto do Mestre. Mas aceita e mais tarde compreende o que o Mestre fez!

Terminado o gesto, Jesus explica: “Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (João 13,12). Jesus é enfático em sua recomendação: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz!” Nós não podemos escolher não fazer. O verdadeiro discípulo faz o que o Mestre fez. Jesus não diz: façam se quiserem, mas ‘façais’!

Nesta celebração a Igreja também faz memória do Sacramento da Eucaristia. Como já dissemos, Jesus encontrou uma forma de permanecer junto com a sua Igreja e com o seu povo. Por isso a Eucaristia é o ápice de toda a vida da Igreja. A Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia inicia dizendo que “a Igreja vive da Eucaristia”. Sem Eucaristia não tem Igreja e sem Igreja não temos Eucaristia. Atrelados a tudo isso temos o Sacerdócio ministerial. Por isso o sacerdote só pode realizar um sacramento validamente em comunhão com a Igreja e estando nela. 

Eucaristia, como Sacramento da unidade, também nos remete ao serviço, lembrando o gesto do lava pés que Jesus fez. A comunidade celebra unida. Comunga do mesmo Pão. Celebra ao redor da mesma mesa: o altar! Aí Jesus se oferece pela nossa Salvação todas as vezes que o sacrifício é oferecido, ou seja, a missa é celebrada.

Louvamos a Deus pela Eucaristia! Louvamos também pelos sacerdotes que continuam atualizando o Sacramento em cada Santa Missa! Louvamos a Deus pela Igreja que mantém a unidade e reúne os seus filhos para louvar e bendizê-lo!

Convido você a participar com fé do Tríduo Pascal, pois nele está a centralidade da nossa fé. Hoje iniciamos os momentos onde Deus se doa na totalidade. Morre por nossa Salvação! Deixa-nos a Eucaristia, ou seja, permanece conosco. Ressuscita vencendo a morte por todos nós! Esta celebração é uma grande lição de amor!

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.

17 de março de 2016

“PAI, PERDOA-LHES!”

Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus!

Chegamos ao coração da liturgia da Igreja: SEMANA SANTA! O nome já nos chama atenção para algo diferente. Esta não é uma semana como as demais, ela é por excelência SANTA. Você saberia dizer por quê?

Para respondermos a esta pergunta, basta olharmos para tudo aquilo que será celebrado do decurso da semana. Nela rezaremos e teremos a oportunidade de refletirmos sobre o mistério da nossa Salvação. Uma semana em que recordaremos aquilo que São Paulo diz ser um escândalo para o mundo, mas amor e justiça aos olhos de Deus (Cf. Coríntios 1,18).

Para aqueles que não tem fé, a cruz e todos os acontecimentos da história da Salvação se tornam incompreensíveis. A Semana Santa quer resgatar estes fatos e nos fazer rezar sobre eles. Por isso temos a centralidade de todo o ano litúrgico. Partimos da Páscoa para celebrar todo este grande mistério.

Desde já convido a você, cristão católico, juntamente com a sua família a participarem de todas as celebrações da desta semana. Participar para podermos entender melhor e viver com mais fé tudo o que Deus realizou por nós. Ele deu tudo, deu seu Filho. A nós cabe acolher este mistério e através de uma vida de santidade.

A liturgia deste Domingo de Ramos lembra a entrada de Jesus em Jerusalém. Jesus sabia que a Sua hora tinha chegado. Ele não foge, mas vai ao encontro do projeto de Deus. Um exemplo para todos nós cristãos. Feliz de quem acolhe e segue os passos do Senhor.

Nestes últimos passos que Jesus dá sobre a terra é aclamado pelo povo como rei. Porém não é um rei que vem rodeado de súditos e sentado num trono de ouro. Mas um rei que vem junto com os irmãos montado num jumentinho. Mas que rei é este? Cadê seu exército, sua nobreza? Por isso escandaliza a muitos. Porque é um rei que tem seu trono no céu, mas também nos ensina mais uma vez que o maior é aquele que serve. Seu exército são os discípulos, os humildes, os pequenos. Aqueles que não tem armas nas mãos, mas a Palavra de Deus.

Na segunda Leitura (Filipenses 2,6-11) da santa missa deste Domingo, Paulo exprime sabiamente tudo o que Jesus fez e viveu neste hino cristológico. Vamos trazê-lo porque tem palavras e elementos que vão nos ajudar a entender a nossa reflexão: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua proclame: 'Jesus Cristo é o Senhor', para a glória de Deus Pai”.

Sendo Deus, foi humilde. Por que será que nós caímos na tentação do orgulho? Por que queremos ser mais do que os outros pela força ou pela palavra? Pobrezinhos de nós quando buscamos a vanglória. Não entendemos nada do que Jesus nos ensinou. O esvaziar-se de si é para ser preenchido por Deus. Feliz de quem compreende e busca viver isso.

No Evangelho (Lucas 22,14-23,56) temos a narração da paixão. Sabemos já do desenrolar da história e não queremos aqui descreve-la. Basta você rezar com atenção a riqueza desta Palavra.

Estando no Ano da Misericórdia. Chamamos a atenção da palavra de Jesus já pregado na cruz: “PAI, PERDOA-LHES!” No extremo na dor, do sofrimento, da agonia, Jesus nunca esquece da sua missão: manifestar a misericórdia do Pai! Ele clama por aqueles que fazem isso com Ele para que o Pai lhes perdoasse. E acrescenta: “Eles não sabem o que fazem!” Quantas e quantas vezes fazemos coisas que ferem o coração de Deus. Por isso essa oração é por nós também.

Só Deus pode fazer isto. Quem de nós conseguiria perdoar seus algozes em um momento destes? As vezes temos dificuldades e resistimos em perdoar quem nos olha de uma forma diferente ou quem nos diz uma palavra que nos desagrada. Quando mais difícil é perdoar os ferimentos físicos e emocionais.

Amigos e amigas! A celebração deste Domingo em que iniciamos a Semana Santa é uma grande oportunidade que Deus nos oferece para nossa conversão. Somos chamados a humildade, ao esvaziamento, ao exercício do perdão e a entrega –se confiantes nas mãos do Pai, assim como Jesus o fez.

Ao participar da santa missa, convido você a entrar com Jesus em Jerusalém. Entrar para lá ser purificado de todos os teus pecados. Morrer para tudo aquilo que não te deixa viver como um verdadeiro filho de Deus. Fazer a experiência de ser amado, perdoado e desejar uma profunda transformação. Permaneça lá com o Senhor. Contemple a Cruz, sinal da nossa Salvação.

Aqui terminamos nossa reflexão. Continue com o Senhor. Ao longo da semana continuaremos nosso caminho e vamos refletindo sobre os demais acontecimentos que se seguem. Importante é você entrar na Jerusalém de hoje, a nossa Igreja, lá permanecer e desejar a Salvação. Dela caminhamos para a Jerusalém celeste, onde o Senhor nos espera para a festa definitiva. O Senhor e a Igreja te acolhem de braços abertos.

Abençoada Semana Santa! Desejo profundamente que ela seja uma semana diferente na tua vida. Exercite o silêncio, busque ainda mais a oração, reconcilie-te com alguém caso tenha alguma coisa. Seja forte como Jesus. Nas dificuldades não queira fugir e nem se lamentar. Olhe para a cruz e abrace a tua Salvação.

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.

10 de março de 2016

QUEM NÃO TIVER PECADO, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Queridos e amigos irmãos e irmãs em Cristo Jesus.

Chegamos ao quinto Domingo da Quaresma. Esta será a última semana antes da Semana Santa. A Palavra de Deus, verdadeiro alimento de todo cristão, tem muitas coisas para nos ensinar neste dia, que é o Dia do Senhor!

Iniciamos lembrando um dos aspectos importantes para a nossa caminhada de fé e que fomos convidados a retomarmos neste tempo da Quaresma: a oração. O Evangelho deste 5º Domingo inicia dizendo que Jesus foi para o monte das Oliveiras. Certamente ele estava em oração e partindo de lá, vai para o Templo ensinar.

Jesus passava longas horas em oração para poder não perder a sintonia que Ele tinha com o Pai. Era importante para Ele a oração. Para nós cristãos também é. Quando estamos em sintonia com o Pai, vamos conhecendo e fazendo a Sua vontade em nossa vida.

Jesus vai ao Templo para ensinar. Aqui merece mais uma pausa para retomarmos o que dizíamos no Domingo passado. Jesus “nos convida a contemplarmos a Misericórdia de Deus. Misericórdia que não tem limites, porque Deus é amor”.

Mesmo que os fariseus e mestres da Lei não aceitassem e não quisessem compreender, Jesus na verdade estava retomando a imagem do Pai que já aparecia, ainda que as apalpadelas, no Antigo Testamento. Vemos que o desejo de vida nova para os seus filhos é constante na Palavra. Na Leitura do Profeta Isaías (43,16-21), por exemplo, ele nos diz que fará novas todas as coisas (cf v. 19). Só Deus pode fazer tudo novo, dar vida nova.

O Salmista reconhece e canta isso: “Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, parecíamos sonhar; encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios, de canções. Entre os gentios se dizia: 'Maravilhas fez com eles o Senhor!' Sim, maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!” (Salmo 125/126). Jesus quer mostrar com suas obras e seus ensinamentos que o Pai fez e fará ainda muitas maravilhas e que todos os seus filhos e filhas são chamados a viverem no seu amor.

Porém, Jesus sempre foi muito criticado pelas suas atitudes e incompreendido nos seus ensinamentos. Isso continua se repetindo ainda hoje.

Para colocá-lo a prova, trazem até Jesus (Evangelho João 8,1-11) “uma mulher surpreendida em adultério” (v. 3). Segundo a Lei, interpretada pelos fariseus e mestres, ela deveria ser apedrejada (v. 5). Na verdade era uma armadilha para tentar pegar Jesus. Esta cena também merece nossa atenção.

Assim como os mestres e fariseus, nós cristãos hoje, corremos um risco tremendo de julgar e condenar os outros. Queremos sempre apontar a mão e o dedo para o erro dos outros, mas esquecemos que também fomos e sempre seremos necessitados da misericórdia de Deus. Assim como um dia fomos resgatados, há muitos que também precisam ser resgatados hoje, não condenados.

Para apontar erros, julgar, jogar pedras já existem muitas pessoas. Nós não deveríamos ser assim. Nossas mãos jamais deveriam carregar pedras para serem jogadas nas pessoas, mas flores que alegram, enfeitam e perfumam os ambientes.

Jesus não entra na jogada deles. Como Ele sempre estava em sintonia com o Pai através da oração, as suas atitudes e sentimentos não são levadas pela emoção ou pressão do momento. Ele vai além. Primeiro olha para a mulher e não para os seus pecados. Vê uma filha de Deus e não uma adúltera. O risco que temos sempre de olhar os pecados, erros e limitações dos outros e não que é um filho de Deus.

Depois Jesus responde a provocação fazendo com que eles olhassem para a própria vida deles e não a da mulher. Por isso Ele diz: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (v. 7). Belíssima a provocação de Jesus. Ele faz todos se darem conta que são pecadores e que a ninguém Deus deu o direito de julgar e condenar. Por isso, toda a forma de morte é pecado e vai contra o projeto original do criador.

Evangelizado o povo, Jesus dá a última recomendação para a mulher: “Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (v. 11). Jesus não passa a mão na cabeça dela dizendo que a sua conduta também estava correta. Ele a acolhe, perdoa e recomenda que não volte a praticar o que estava fazendo, não peque mais.

Hoje o Senhor dirige o mesmo apelo a todos nós, seus filhos e filhas: NÃO PEQUE MAIS! Porque o pecado vai contra tudo o que Deus tem planejado e sonhado para nós. O pecado nos afasta do verdadeiro o único amor da nossa vida. O pecado destrói o projeto original de Deus sobre nós e sobre toda a criação. O pecado gera a morte do pecador e faz toda a criação sofrer.

Para encerrar trazemos alguns versículos da segunda Leitura de São Paulo os Filipenses (3,8-14). Nela fica claro de como deve ser nosso caminho de cristãos: “Irmãos: Na verdade, considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele”. Cristo basta para a nossa vida.

Então vamos seguindo nosso caminho sem desanimar. Aprendamos de Jesus o amor e a misericórdia e deixemos de lado toda e qualquer espécie de julgamento.

Abençoado Domingo e uma semana cheia de graças e paz.

Pe. Hermes José Novakoski, PSDP.

8 de março de 2016

DIVINA MULHER - Homenagem ao Dia da Mulher


Concebida por mãos divinas
Foi criada a mais bela das criaturas
Com formas graciosas e femininas
Admirável perfeição e formosura

Inspirado com a sua criação
Deus esculpiu e caprichou
Moldando o rosto e a feição
Com um sereno semblante de amor

A voz mais melodiosa
Que o canto da mais bela ave
Bem afinada e harmoniosa
Bonita, doce e suave

Mãos macias e delicadas
Dotadas de muitas habilidades
Maravilhosas e aveludadas
Curam todas as enfermidades

A inteligência é a sua maior qualidade
Acompanhada de afeto e ternura
Singelo toque de personalidade
Talento, garra e bravura

Abençoada com todas as virtudes
Compreensão, pureza e generosidade
Equilibrada em todas as atitudes
Age com justiça e dignidade

Foi sabiamente escolhida pelo Senhor
Para conceber e dar à luz
E o Anjo Gabriel anunciou
Maria, tu serás a Mãe de Jesus!

Poeta Arilo Cavalcanti Jr

6 de março de 2016

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA



Misericordiae Vultus
BULA DE PROCLAMAÇÃO
DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
FRANCISCO
BISPO DE ROMA
SERVO DOS SERVOS DE DEUS
A QUANTOS LEREM ESTA CARTA
GRAÇA, MISERICÓRDIA E PAZ


Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. O Pai, « rico em misericórdia » (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como « Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade » (Ex34, 6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina. Na « plenitude do tempo » (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa,[1] Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus.

Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.

Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes.

O Ano Santo abrir-se-á no dia 8 de Dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Conceição. Esta festa litúrgica indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus não quis deixar a humanidade sozinha e à mercê do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4), para que Se tornasse a Mãe do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa. Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança.

No domingo seguinte, o Terceiro Domingo de Advento, abrir-se-á a Porta Santa na Catedral de Roma, a Basílica de São João de Latrão. E em seguida será aberta a Porta Santa nas outras Basílicas Papais. Estabeleço que no mesmo domingo, em cada Igreja particular – na Catedral, que é a Igreja-Mãe para todos os fiéis, ou na Concatedral ou então numa Igreja de significado especial – se abra igualmente, durante todo o Ano Santo, uma Porta da Misericórdia. Por opção do Ordinário, a mesma poderá ser aberta também nos Santuários, meta de muitos peregrinos que frequentemente, nestes lugares sagrados, se sentem tocados no coração pela graça e encontram o caminho da conversão. Assim, cada Igreja particular estará directamente envolvida na vivência deste Ano Santo como um momento extraordinário de graça e renovação espiritual. Portanto o Jubileu será celebrado, quer em Roma quer nas Igrejas particulares, como sinal visível da comunhão da Igreja inteira.

Escolhi a data de 8 de Dezembro, porque é cheia de significado na história recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento. Começava então, para ela, um percurso novo da sua história. Os Padres, reunidos no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova etapa na evangelização de sempre. Um novo compromisso para todos os cristãos de testemunharem, com mais entusiasmo e convicção, a sua fé. A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai.

Voltam à mente aquelas palavras, cheias de significado, que São João XXIII pronunciou na abertura do Concílio para indicar a senda a seguir: « Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio Ecuménico o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados ».[2] E, no mesmo horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclusão do Concílio: « Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade. (...) Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. (…) Uma corrente de interesse e admiração saiu do Concílio sobre o mundo actual. Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo actual não com presságios funestos mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços. (…) Uma outra coisa, julgamos digna de consideração. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades ».[3]

Com estes sentimentos de gratidão pelo que a Igreja recebeu e de responsabilidade quanto à tarefa que nos espera, atravessaremos a Porta Santa com plena confiança de ser acompanhados pela força do Senhor Ressuscitado, que continua a sustentar a nossa peregrinação. O Espírito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra de salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia.[4]

O Ano Jubilar terminará na solenidade litúrgica de Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de Novembro de 2016. Naquele dia, ao fechar a Porta Santa, animar-nos-ão, antes de tudo, sentimentos de gratidão e agradecimento à Santíssima Trindade por nos ter concedido este tempo extraordinário de graça. Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso à Realeza de Cristo, para que derrame a sua misericórdia, como o orvalho da manhã, para a construção duma história fecunda com o compromisso de todos no futuro próximo. Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós.

« É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência ».[5] Estas palavras de São Tomás de Aquino mostram como a misericórdia divina não seja, de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da omnipotência de Deus. É por isso que a liturgia, numa das suas colectas mais antigas, convida a rezar assim: « Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis… »[6] Deus permanecerá para sempre na história da humanidade como Aquele que está presente, Aquele que é próximo, providente, santo e misericordioso.

« Paciente e misericordioso » é o binómio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus. O facto de Ele ser misericordioso encontra um reflexo concreto em muitas acções da história da salvação, onde a sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição. Os Salmos, em particular, fazem sobressair esta grandeza do agir divino: « É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça e ternura » (103/102, 3-4). E outro Salmo atesta, de forma ainda mais explícita, os sinais concretos da misericórdia: « O Senhor liberta os prisioneiros. O Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva, mas entrava o caminho aos pecadores » (146/145, 7-9). E, para terminar, aqui estão outras expressões do Salmista: « [O Senhor] cura os de coração atribulado e trata-lhes as feridas. (...) O Senhor ampara os humildes, mas abate os malfeitores até ao chão » (147/146, 3.6). Em suma, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstracta mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor « visceral ». Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.

« Eterna é a sua misericórdia »: tal é o refrão que aparece em cada versículo do Salmo 136, ao mesmo tempo que se narra a história da revelação de Deus. Em virtude da misericórdia, todos os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios dum valor salvífico profundo. A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da salvação. O facto de repetir continuamente « eterna é a sua misericórdia », como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai. Não é por acaso que o povo de Israel tenha querido inserir este Salmo – o « grande hallel », como lhe chamam – nas festas litúrgicas mais importantes.

Antes da Paixão, Jesus rezou ao Pai com este Salmo da misericórdia. Assim o atesta o evangelista Mateus quando afirma que « depois de cantarem os salmos » (26, 30), Jesus e os discípulos saíram para o Monte das Oliveiras. Enquanto instituía a Eucaristia, como memorial perpétuo d’Ele e da sua Páscoa, Jesus colocava simbolicamente este acto supremo da Revelação sob a luz da misericórdia. No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Ele a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz. O facto de saber que o próprio Jesus rezou com este Salmo torna-o, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: « eterna é a sua misericórdia ».

Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. « Deus é amor » (1 Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João. Agora este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão.

Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por elas (cf. Mt 9, 36). Em virtude deste amor compassivo, curou os doentes que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14, 14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15, 37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual lia no coração dos seus interlocutores e dava resposta às necessidades mais autênticas que tinham. Quando encontrou a viúva de Naim que levava o seu único filho a sepultar, sentiu grande compaixão pela dor imensa daquela mãe em lágrimas e entregou-lhe de novo o filho, ressuscitando-o da morte (cf. Lc 7, 15). Depois de ter libertado o endemoninhado de Gerasa, confia-lhe esta missão: « Conta tudo o que o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de ti » (Mc 5, 19). A própria vocação de Mateus se insere no horizonte da misericórdia. Ao passar diante do posto de cobrança dos impostos, os olhos de Jesus fixaram-se nos de Mateus. Era um olhar cheio de misericórdia que perdoava os pecados daquele homem e, vencendo as resistências dos outros discípulos, escolheu-o, a ele pecador e publicano, para se tornar um dos Doze. São Beda o Venerável, ao comentar esta cena do Evangelho, escreveu que Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e escolheu-o:miserando atque eligendo.[7] Sempre me causou impressão esta frase, a ponto de a tomar para meu lema.

Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a dum Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em especial: as da ovelha extraviada e da moeda perdida, e a do pai com os seus dois filhos (cf. Lc 15, 1-32). Nestas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão.

Temos depois outra parábola da qual tiramos uma lição para o nosso estilo de vida cristã. Interpelado pela pergunta de Pedro sobre quantas vezes fosse necessário perdoar, Jesus respondeu: « Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete » (Mt18, 22) e contou a parábola do « servo sem compaixão ». Este, convidado pelo senhor a devolver uma grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a dívida. Mas, imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos centésimos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se e fá-lo meter na prisão. Então o senhor, tendo sabido do facto, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: « Não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti? » (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: « Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração » (Mt 18, 35).

A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para connosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: « Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento » (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: « Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia » (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.

Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstracta. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na actividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros.

A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua acção pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja « vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia ».[8] Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia. Por um lado, atentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa de ir mais além a fim de alcançar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, é triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança.

Não podemos esquecer o grande ensinamento que ofereceu São João Paulo II com a sua segunda encíclica, a Dives in misericordia, que então surgiu inesperada suscitando a surpresa de muitos pelo tema que era abordado. Desejo recordar especialmente dois trechos. No primeiro deles, o Santo Papa assinalava o esquecimento em que caíra o tema da misericórdia na cultura dos nossos dias: « A mentalidade contemporânea, talvez mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica nunca antes verificado na história, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou (cf. Gn 1, 28). Um tal domínio sobre a terra, entendido por vezes unilateral e superficialmente, parece não deixar espaço para a misericórdia. (...) Por esse motivo, na hodierna situação da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos ambientes guiados por um vivo sentido de fé, voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a misericórdia de Deus ».[9]

Além disso, São João Paulo II motivava assim a urgência de anunciar e testemunhar a misericórdia no mundo contemporâneo: « Ela é ditada pelo amor para com o homem, para com tudo o que é humano e que, segundo a intuição de grande parte dos contemporâneos, está ameaçado por um perigo imenso. O próprio mistério de Cristo (...) obriga-me igualmente a proclamar a misericórdia como amor misericordioso de Deus, revelada também no mistério de Cristo. Ele me impele ainda a apelar para esta misericórdia e a implorá-la nesta fase difícil e crítica da história da Igreja e do mundo ».[10] Tal ensinamento é hoje mais actual do que nunca e merece ser retomado neste Ano Santo. Acolhamos novamente as suas palavras: « A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora ».[11]

A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma acção pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia.

A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.

Queremos viver este Ano Jubilar à luz desta palavra do Senhor: Misericordiosos como o Pai. O evangelista refere o ensinamento de Jesus, que diz: « Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso » (Lc 6, 36). É um programa de vida tão empenhativo como rico de alegria e paz. O imperativo de Jesus é dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf. Lc 6, 27). Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida.

peregrinação é um sinal peculiar no Ano Santo, enquanto ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência. A vida é uma peregrinação e o ser humano é viator, um peregrino que percorre uma estrada até à meta anelada. Também para chegar à Porta Santa, tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa deverá fazer, segundo as próprias forças, uma peregrinação. Esta será sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar que exige empenho e sacrifício. Por isso, a peregrinação há-de servir de estímulo à conversão: ao atravessar a Porta Santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros como o Pai o é connosco.

O Senhor Jesus indica as etapas da peregrinação através das quais é possível atingir esta meta: « Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco » (Lc 6, 37-38). Ele começa por dizer para não julgar nem condenar. Se uma pessoa não quer incorrer no juízo de Deus, não pode tornar-se juiz do seu irmão. É que os homens, no seu juízo, limitam-se a ler a superfície, enquanto o Pai vê o íntimo. Que grande mal fazem as palavras, quando são movidas por sentimentos de ciúme e inveja! Falar mal do irmão, na sua ausência, equivale a deixá-lo mal visto, a comprometer a sua reputação e deixá-lo à mercê das murmurações. Não julgar nem condenar significa, positivamente, saber individuar o que há de bom em cada pessoa e não permitir que venha a sofrer pelo nosso juízo parcial e a nossa pretensão de saber tudo. Mas isto ainda não é suficiente para se exprimir a misericórdia. Jesus pede também para perdoar e dar. Ser instrumentos do perdão, porque primeiro o obtivemos nós de Deus. Ser generosos para com todos, sabendo que também Deus derrama a sua benevolência sobre nós com grande magnanimidade.

Misericordiosos como o Pai é, pois, o « lema » do Ano Santo. Na misericórdia, temos a prova de como Deus ama. Ele dá tudo de Si mesmo, para sempre, gratuitamente e sem pedir nada em troca. Vem em nosso auxílio, quando O invocamos. É significativo que a oração diária da Igreja comece com estas palavras: « Deus, vinde em nosso auxílio! Senhor, socorrei-nos e salvai-nos » (Sal 70/69, 2). O auxílio que invocamos é já o primeiro passo da misericórdia de Deus para connosco. Ele vem para nos salvar da condição de fraqueza em que vivemos. E a ajuda d’Ele consiste em fazer-nos sentir a sua presença e proximidade. Dia após dia, tocados pela sua compaixão, podemos também nós tornar-nos compassivos para com todos.

Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.

É meu vivo desejo que o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos.

Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25, 31-45). De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudamos a tirar da dúvida, que faz cair no medo e muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de quem está sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivemos paciência, a exemplo de Deus que é tão paciente connosco; enfim se, na oração, confiamos ao Senhor os nossos irmãos e irmãs. Em cada um destes « mais pequeninos », está presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga ... a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as palavras de São João da Cruz: « Ao entardecer desta vida, examinar-nos-ão no amor ».[12]

No Evangelho de Lucas, encontramos outro aspecto importante para viver, com fé, o Jubileu. Conta o evangelista que Jesus voltou a Nazaré e ao sábado, como era seu costume, entrou na sinagoga. Chamaram-No para ler a Escritura e comentá-la. A passagem era aquela do profeta Isaías onde está escrito: « O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano de misericórdia do Senhor » (61,1-2). « Um ano de misericórdia »: isto é o que o Senhor anuncia e que nós desejamos viver. Este Ano Santo traz consigo a riqueza da missão de Jesus que ressoa nas palavras do Profeta: levar uma palavra e um gesto de consolação aos pobres, anunciar a libertação a quantos são prisioneiros das novas escravidões da sociedade contemporânea, devolver a vista a quem já não consegue ver porque vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade àqueles que dela se viram privados. A pregação de Jesus torna-se novamente visível nas respostas de fé que o testemunho dos cristãos é chamado a dar. Acompanhem-nos as palavras do Apóstolo: « Quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria » (Rm 12, 8).

A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! Com as palavras do profeta Miqueias, podemos também nós repetir: Vós, Senhor, sois um Deus que tira a iniquidade e perdoa o pecado, que não Se obstina na ira mas Se compraz em usar de misericórdia. Vós, Senhor, voltareis para nós e tereis compaixão do vosso povo. Apagareis as nossas iniquidades e lançareis ao fundo do mar todos os nossos pecados (cf. 7, 18-19).

As páginas do profeta Isaías poderão ser meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de oração, jejum e caridade. « O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti. Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: “Aqui estou!” Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos teus ossos. Serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas inesgotáveis » (58, 6-11).

A iniciativa « 24 horas para o Senhor », que será celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da Quaresma, deve ser incrementada nas dioceses. Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida. Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior.

Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia.

Na Quaresma deste Ano Santo, é minha intenção enviar os Missionários da Misericórdia. Serão um sinal da solicitude materna da Igreja pelo povo de Deus, para que entre em profundidade na riqueza deste mistério tão fundamental para a fé. Serão sacerdotes a quem darei autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, para que se torne evidente a amplitude do seu mandato. Serão sobretudo sinal vivo de como o Pai acolhe a todos aqueles que andam à procura do seu perdão. Serão missionários da misericórdia, porque se farão, junto de todos, artífices dum encontro cheio de humanidade, fonte de libertação, rico de responsabilidade para superar os obstáculos e retomar a vida nova do Baptismo. Na sua missão, deixar-se-ão guiar pelas palavras do Apóstolo: « Deus encerrou a todos na desobediência, para com todos usar de misericórdia » (Rm 11, 32). Na verdade todos, sem excluir ninguém, estão chamados a acolher o apelo à misericórdia. Os missionários vivam esta chamada, sabendo que podem fixar o olhar em Jesus, « Sumo Sacerdote misericordioso e fiel » (Hb 2, 17).

Peço aos irmãos bispos que convidem e acolham estes Missionários, para que sejam, antes de tudo, pregadores convincentes da misericórdia. Organizem-se, nas dioceses, « missões populares », de modo que estes Missionários sejam anunciadores da alegria do perdão. Seja-lhes pedido que celebrem o sacramento da Reconciliação para o povo, para que o tempo de graça, concedido neste Ano Jubilar, permita a tantos filhos afastados encontrar de novo o caminho para a casa paterna. Os pastores, especialmente durante o tempo forte da Quaresma, sejam solícitos em convidar os fiéis a aproximar-se « do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça » (Hb 4, 16).

Que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente. O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. Peço-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador. Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro connosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o juízo de Deus, do qual ninguém pode escapar.

O mesmo convite chegue também às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga putrefacta da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projectos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio optimi pessima: dizia, com razão, São Gregório Magno, querendo indicar que ninguém pode sentir-se imune desta tentação. Para a erradicar da vida pessoal e social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida.

Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afectos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Está sempre disposto a ouvir, e eu também estou, tal como os meus irmãos bispos e sacerdotes. Basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia.

Neste contexto, não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor. A justiça é um conceito fundamental para a sociedade civil, normalmente quando se faz referimento a uma ordem jurídica através da qual se aplica a lei. Por justiça entende-se também que a cada um deve ser dado o que lhe é devido. Na Bíblia, alude-se muitas vezes à justiça divina, e a Deus como juiz. Habitualmente é entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo o bom judeu conforme aos mandamentos dados por Deus. Esta visão, porém, levou não poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e obscurecendo o valor profundo que a justiça possui. Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus.

Por sua vez, Jesus fala mais vezes da importância da fé que da observância da lei. É neste sentido que devemos compreender as suas palavras, quando, encontrando-Se à mesa com Mateus e outros publicanos e pecadores, disse aos fariseus que O acusavam por isso mesmo: « Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores » (Mt 9, 13). Diante da visão duma justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. Compreende-se que Jesus, por causa desta sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para ser fiéis à lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando porém a misericórdia do Pai. O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a atenção às necessidades que afectam a dignidade das pessoas.

A propósito, é muito significativo o apelo que Jesus faz ao texto do profeta Oseias: « Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios » (6, 6). Jesus afirma que, a partir de agora, a regra de vida dos seus discípulos deverá ser aquela que prevê o primado da misericórdia, como Ele mesmo dá testemunho partilhando a refeição com os pecadores. A misericórdia revela-se, mais uma vez, como dimensão fundamental da missão de Jesus. É um verdadeiro desafio posto aos seus interlocutores, que se contentavam com o respeito formal da lei. Jesus, pelo contrário, vai além da lei, a sua partilha da mesa com aqueles que a lei considerava pecadores permite compreender até onde chega a sua misericórdia.

Também o apóstolo Paulo fez um percurso semelhante. Antes de encontrar Cristo no caminho de Damasco, a sua vida era dedicada a servir de maneira irrepreensível a justiça da lei (cf. Fl 3, 6). A conversão a Cristo levou-o a inverter a sua visão, a ponto de afirmar na Carta aos Gálatas: « Também nós acreditámos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei » (2, 16). A sua compreensão da justiça muda radicalmente: Paulo agora põe no primeiro lugar a fé, e já não a lei. Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, traz a salvação com a misericórdia que justifica. A justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela escravidão do pecado e todas as suas consequências. A justiça de Deus é o seu perdão (cf. Sl 51/50, 11-16).

A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. A experiência do profeta Oseias ajuda-nos, mostrando-nos a superação da justiça na linha da misericórdia. A época em que viveu este profeta conta-se entre as mais dramáticas da história do povo judeu. O Reino está próximo da destruição; o povo não permaneceu fiel à aliança, afastou-se de Deus e perdeu a fé dos pais. Segundo uma lógica humana, é justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel: não observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou seja, o exílio. Assim o atestam as palavras do profeta: « Não voltará para o Egipto, mas a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se » (Os 11, 5). E todavia, depois desta reacção que faz apelo à justiça, o profeta muda radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus: « O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti e não me deixo levar pela ira » (11, 8-9). Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta, diz: « É mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia ».[13] É mesmo assim! A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua misericórdia é eterna.

Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça. Devemos prestar muita atenção àquilo que escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus seus contemporâneos: « Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus. É que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja concedida a todo o que tem fé » (Rm 10, 3-4). Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.

O Jubileu inclui também o referimento à indulgência. Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma relevância particular. O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja. Por isso, Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de o oferecer de maneira sempre nova e inesperada. No entanto todos nós fazemos experiência do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf. Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.

A Igreja vive a comunhão dos Santos. Na Eucaristia, esta comunhão, que é dom de Deus, realiza-se como união espiritual que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável (Ap 7, 4). A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a Mãe-Igreja, com a sua oração e a sua vida, é capaz de acudir à fraqueza de uns com a santidade de outros. Portanto viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, com a certeza de que o seu perdão cobre toda a vida do crente. A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão.

A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus. Israel foi o primeiro que recebeu esta revelação, permanecendo esta na história como o início duma riqueza incomensurável para oferecer à humanidade inteira. Como vimos, as páginas do Antigo Testamento estão permeadas de misericórdia, porque narram as obras que o Senhor realizou em favor do seu povo, nos momentos mais difíceis da sua história. O islamismo, por sua vez, coloca entre os nomes dados ao Criador o de Misericordioso e Clemente. Esta invocação aparece com frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela misericórdia na sua fraqueza diária. Também eles acreditam que ninguém pode pôr limites à misericórdia divina, porque as suas portas estão sempre abertas.

Possa este Ano Jubilar, vivido na misericórdia, favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação.

O pensamento volta-se agora para a Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor.

Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende « de geração em geração » (Lc 1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria. Isto servir-nos-á de conforto e apoio no momento de atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da misericórdia divina.

Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.

E a nossa oração estenda-se também a tantos Santos e Beatos que fizeram da misericórdia a sua missão vital. Em particular, o pensamento volta-se para a grande apóstola da Misericórdia, Santa Faustina Kowalska. Ela, que foi chamada a entrar nas profundezas da misericórdia divina, interceda por nós e nos obtenha a graça de viver e caminhar sempre no perdão de Deus e na confiança inabalável do seu amor.

Será, portanto, um Ano Santo extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar connosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia. Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior que seja o número daqueles que dela se abeirem. Sempre que alguém tiver necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim. Quanto insondável é a profundidade do mistério que encerra, tanto é inesgotável a riqueza que dela provém.

Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: « Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre » (Sl 25/24, 6).

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Abril – véspera do II Domingo de Páscoa ou  da Divina Misericórdia – do Ano do Senhor de 2015, o terceiro de pontificado.
Francisco


[1] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, 4.
[2]Discurso de abertura do Concílio Ecuménico Vaticano IIGaudet Mater Ecclesia (11 de Outubro de 1962), 2-3.
 [3]Alocução na última sessão pública (7 de Dezembro de 1965).
 [4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 16; Const. past. Gaudium et spes, 15.
 [5] Tomás de Aquino, Summa theologiae, II-II, q. 30, a. 4.
 [6] Domingo XXVI do Tempo Comum. Esta colecta já aparece, no séc. VIII, entre os textos eucológios do Sacramentário Gelasiano (1198).
 [7] Cf. Homilia 21: CCL 122, 149-151.
 [8] Exort. ap. Evangelii gaudium, 24.
 [9] João Paulo II, Carta enc. Dives in misericordia, 2.
[10]Ibid., 15.
[11]Ibid., 13.
[12]Ditos de luz e amor, 57.

[13]Enarratio in Psalmos, 76, 11.